Todos nós acompanhamos, uns com maior e outros com menor interesse, as notícias a respeito da greve dos Roteiristas nos EUA. O foco principal dos noticiários girou em torno da preocupação de que, por cota da paralisação, a cerimônia do Oscar fosse suspensa ou prejudicada, visto que os roteiristas são os responsáveis pela elaboração do roteiro/textos tão famosos deste grande evento do cinema.

O que ficou implícito e que de mais importância esta paralisação deveria ter levantado é a falta de valorização com que o trabalho intelectual tem de lidar em todo o mundo. Se assim o é em países considerados desenvolvidos como os Estados Unidos, imaginemos a situação caótica do Terceiro Mundo.

Os profissionais, das mais variadas áreas, que trabalham com o desenvolvimento de atividades intelectuais permanecem ocultos, ofuscados diante do sucesso de suas obras que, embora gerando grandes lucros nas telinhas, nas telonas, no meio musical, virtual e até impresso, pouco recebem em termos financeiros (ou até em termos de reconhecimento) por seus trabalhos.

A título de exemplos, podemos citar os diversos compositores que passam anônimos durante toda a carreira, enquanto uma infinidade de obras está sendo cantada pelas ruas. E os roteiristas de grandes filmes, que embora gerem bilhões em bilheteria, precisam mobilizar uma paralisação geral, a fim que se lembrem do respeito que seu ofício merece.

Não é raro que um trabalho intelectual seja solicitado sem que um pagamento seja oferecido em troca.
Não que a arte tenha um preço, mas creio ser absolutamente ilógico que Van Gogh tenha morrido praticamente na miséria, enquanto seus quadros possuem um valor inestimável atualmente. Antes não o possuíam? Sim, possuíam. Infelizmente muitos talentos minguam à margem e só são reconhecidos quando não mais podem receber por sua criatividade e talento…
Quando solicitamos um técnico em Antenas Parabólicas, um eletricista, um encanador, sabemos que ele cobrará pelos seus serviços, sabemos e aceitamos que ele cobre inclusive o tempo disponibilizado através da famosa “taxa de visita”, no entanto, quando pedimos um Projeto a um funcionário capacitado, um texto para homenagearmos alguém a um poeta, enfim, um trabalho intelectual, pensamos que ao darmos a este a oportunidade de escrever não precisamos pagar-lhe por esse empenho.
Sim, a arte não tem preço, seu valor dificilmente poderia ser calculado. O artista, porém, tem contas a pagar. Ele se dedica, se expõe, se sacrifica, se supera, faz algo além do que muitas pessoas podem fazer, e, por esta razão, deveria ser reconhecido. Em vida!

Assim como chamamos o eletricista porque seus serviços vão além dos nossos conhecimentos em fiação e eletricidade, solicitamos o trabalho do intelectual porque ele é capacitado para algo, ele possui um diferencial, acreditamos.

Talvez me faça simplista com estas comparações, ou possa parecer demasiadamente materialista pelos apontamentos. Não são estas as minhas reais intenções, apenas ilustro o que possa ter passado intencionalmente oculto durante as discussões a respeito da greve dos roteiristas americanos: uma categoria marginalizada, os trabalhadores intelectuais.
Diante de um mundo que valoriza o trabalho braçal e capitalista, vemos desprezado o trabalho artístico e intelectual, embora precisemos deste tanto quanto de outros. A Arte nos é necessária, mesmo que não possamos perceber sua importância.

Estou sendo exagerada? Então, sem correr olhar para capa do CD, me diga: quem compôs as suas canções favoritas? Sei, algumas foram os próprios músicos que você gosta. Essas você sabe. Mas, e as outras? Será que aquele seu vizinho que compõe na garagem ou outro que produz qualquer outro trabalho intelectual ou artístico não merece ser valorizado?

Os vizinhos de Van Gogh provavelmente achavam que ele era só um esquisitão…

Ps: “Van Gogh vendeu uma única tela enquanto vivo, por 400 francos. Em 1990, cem anos após sua morte, outra tela sua, alcançou o valor de US$ 82,5 milhões, um recorde até então.” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Vincent_van_Gogh )

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